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Por Benito Rosa

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UM AMERICANO ENTRE NÓS

Dallas Doctor

Ele é Dallas Doctor, tem 67 anos e 50 destes dedicados à música. Chega trazendo uma bagagem musical que contribui com a cultura dos garibaldenses

A vida é tão maravilhosa que nos proporciona situações inusitadas, mas, acima de tudo, generosas. Claro que, às vezes, também nos prepara momentos complicados, mas vamos encará-la pelo lado bom. 

Lela Rosanelli, da Harmônica com Dallas Doctor

Lela Rosanelli, professora de inglês, musicista compositora e sócia-proprietária da Harmônica Ensino de Música, recebeu a reportagem do Novo Tempo e foi nossa tradutora no bate-papo com o ilustre visitante.  Revelou que o conheceu quando ele foi até sua escola em busca de uma sala e instrumento disponíveis para que ele pudesse praticar, já que estava sem seu piano aqui no Brasil. Dallas comprou um CD de autoria de Lela e a partir de então iniciaram uma amizade que, posteriormente, se tornou um projeto de gravações das músicas autorais do músico americano.

FOTO DA LELA E DALLAS

SOBRE DALLAS DOCTOR

     Dallas Doctor nasceu em Portland, Oregon. Morou durante maior parte de sua vida em Nova York, onde trabalhava como músico e professor. Em 2016 mudou-se para França após sua aposentadoria da carreira musical. Está morando em Garibaldi desde março de 2020, chegando dias antes do início da pandemia.

     Aos 6 anos, sua família lhe proporcionou cursos de piano e violino. Em 1964, então com 10 anos, tornou-se fã dos Beatles após assistir, pela primeira vez, uma apresentação da banda britânica no famoso programa de TV americano de Ed Sullivan. Foi assim, dois anos após, que em 1966 conseguiu comprar sua primeira guitarra e amplificador e lançou sua própria banda.

     Tem uma trajetória incrível e várias lembranças para contar. É vegano, gentil e revela estar amando Garibaldi, dizendo também que a cidade lhe faz lembrar de uma pequena vila italiana pelas suas características europeias. Chegou aqui ao conhecer Marcos Santos, garibaldense, através de aulas de inglês online. Sua ideia inicial era ficar por somente duas semanas em Garibaldi e posteriormente partir para Florianópolis, onde tem amigos brasileiros que já havia conhecido ainda nos Estados Unidos. Com o início da pandemia, Dallas acabou ficando em Garibaldi e foi carinhosamente acolhido por Marcos e sua esposa Lica. Com o passar das semanas, ele chegou até Lela através do primeiro contato que tiveram na Harmônica Ensino de Música local que ele havia encontrado para praticar teclado enquanto longe de seu instrumento.

Lela e Dallas Doctor

     Desde então, Lela vem apresentando Dallas para algumas pessoas do meio artístico. Em determinado período de 2020, ela ajudou o músico com a filmagem de vídeos no ECOA (Espaço Coletivo das Artes) e foram trabalhando juntos nas edições de imagens. Meses após esse primeiro trabalho, iniciaram as gravações e filmagens de músicas autorais do americano, juntamente com os músicos Germano Benini (bateria), João Vicente Rigoni (produção, gravação e filmagem), Maurício Barbieri (guitarra e violão), Hugo Araújo (fotos e filmagem) e a própria Lela Rosanelli (contra-baixo e backing vocals). Dallas Doctor sentiu-se acolhidíssimo e conta: “depois de tantos anos trabalhando com música, sinto que finalmente encontrei minha família musical”. Dallas conta também que havia decidido se aposentar da vida musical em 2016. Porém com o passar dos meses em Garibaldi, começou a perceber o grande talento dos músicos e artistas locais, sendo tocado pelo trabalho autoral de Lela no vídeo-clipe da música “Nós”, lançada em dezembro de 2020 e que teve direção de Manuela Guerra e filmagem e edição de imagens de Hugo Araújo e João Vicente Rigoni. Segundo ele, “Lela foi responsável por fazê-lo querer começar tudo de novo” em relação à música, gravação de álbuns e filmagem de vídeo clipes. Lela também apresentou Dallas ao professor de inglês Jônei de Marchi, no final do ano passado e através desse novo contato, Dallas começou a ministrar aulas de conversação na escola de idiomas Cultura Americana.

Germano Benini (bateria), Maurício Barbieri (guitarra e violão), Hugo Araújo (fotos e filmagem) e a própria Lela Rosanelli (contra-baixo e backing vocals).

     Refletimos rapidamente sobre a explosão da música americana e britânica pelo mundo e as composições com mensagens profundas que encantaram a todos em meados dos anos 60 e 70, além de mexerem com as pessoas, principalmente com os jovens. Dallas citou, com propriedade, que as maiores inspirações naquele período se referiam muito à paz e ao término da guerra do Vietnã. As guerras se sucediam em várias partes do mundo, e a guerra do Vietnã, conhecida também como Segunda Guerra da Indochina, estava em voga. No Vietnã era chamada “Guerra de Resistência contra a América”, que aconteceu de 1959 até 1975 e foi um conflito entre os dois governos estabelecidos que lutavam pela unificação do país. Enfim, isso despertou as pessoas e os corações pulsavam forte em nome do entendimento mundial e o surgimento de bandas e gêneros musicais maravilhosos.

     Dallas revela que até hoje os americanos adoram ouvir músicas antigas, igual ao que acontece conosco aqui no Brasil, que admiramos muito as músicas passadas, não só americanas, como italianas, britânicas… . Aliás, Dallas revelou que nos Estados Unidos, o cenário da música americana foi invadido pela música Britânica no início dos anos 60, que havia chegado para ficar. Esses fenômenos culturais mudaram no mundo inteiro como bem sabemos e contribuíram para a riqueza de composições e o surgimento do que temos nos dias atuais.

     No Brasil ocorreu fenômeno igual quando do surgimento da Jovem Guarda, que abriu portas para novo gênero musical, mas não se desprendeu da MPB, Música Popular Brasileira, riquíssima em todos os sentidos.

     Disse algo muito interessante: naquela época, a partir dos anos 60/70 em diante, a inspiração era diferente. Se colocava dentro da música e das letras todos os ideais e mudanças desejadas no mundo. Hoje, infelizmente, os interesses são mais de ordem material, interesse financeiro, produção de hits que duram pouco tempo e que precisam constantemente de renovação no mercado da música mundial. Ele deixa claro que conseguiu ganhar dinheiro com a música durante sua vida e que nesses 50 anos de carreira, tocou por diversas vezes as mesmas músicas dos anos 60 e 70 e explica como essas mesmas músicas quebraram a barreira do tempo, sendo apreciadas por diversas gerações.

     Foi então que revivemos o período rico em composições e nomes como Franck Sinatra, Rolling Stonnes, Elvis Presley, The Beatles… . Ah, os Beatles!!!

Dallas Doctor é fã de carteirinha desses geniais e chegou a conhecer e conversar por mais de uma hora com o primeiro baterista da banda, Pete Best. Os Beatles revolucionaram o mundo, fizeram parte do desenvolvimento da contracultura da década de 1950 com som que incorporava elementos da música clássica e pop tradicional de maneiras inovadoras. Mais tarde explodiu estilos musicais que variavam de baladas e música indiana à psicodelia e hard rock, além de influenciar lideranças junto aos movimentos juvenis e socioculturais da época.

     Dallas Doctor é tão fã da banda, que pediu à Marcos sobre alguém que pudesse construir uma estrutura de piano semelhante à utilizada pelos Beatles, justamente para caracterizar artes que remetem à memória de seus ídolos. Além disso, Dallas queria também que seu piano tivesse arte em forma de desenho e, através de Lela, conheceu o trabalho da Bianca Debiasi, que junto de seu irmão Felipe Debiasi, foi a idealizadora da arte que projeta a memória dessa banda de rock inglesa formada em 1960, na cidade de Liverpool, mas que conta também com elementos do movimento “paz e amor”.

Dallas Doctor no piano. Arte da Bianca Debiasi que remete aos Beatles,

O que iria talvez acontecer em Florianópolis, o destino conduziu até nossa cidade, tornando-se uma graça da cultura, além dos deuses da música, logicamente. Os caminhos que percorremos conduzem-nos a encontros com pessoas que já conhecemos e que, muitas vezes, ficam até distantes mesmo sendo próximas. Principalmente nesse período em que a pandemia nos afastou de todos, mas não o suficiente para impedir de nos reencontramos e, desafiando o inimigo invisível que nos ameaça, protegidos para evitarmos que ele nos atinja, saímos para cumprir com nosso destino. E esse, o destino, nos presenteia com um reencontro com pessoas queridas e com novas amizades que se iniciam.

Welcome, Dallas Doctor

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