Clima afeta produção de pêssegos em Pinto Bandeira

De acordo com Emater e Sindicato dos Trabalhadores Rurais, perda na produção de pêssego, em Pinto Bandeira, gira em torno dos 60%

As belas paisagens da Serra Gaúcha foram modificadas nas últimas semanas. Em função do clima, a floração de algumas espécies foi precoce. Porém, a onda de frio e a geada registrada na última semana, apesar da beleza, não foi positiva para quem trabalha na agricultura. Na região, parreirais e árvores frutíferas, principalmente aquelas de frutas de caroço, foram afetadas devido às condições climáticas. A estimativa, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Emater, é de que a quebra na produção, principalmente do pêssego, em Pinto Bandeira, fique em torno dos 60%.

De acordo com o enólogo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS), Thompsson Didoné, um levantamento foi realizado em Pinto Bandeira, nesta semana, em conjunto com o engenheiro agrônomo da instituição, Enio Todeschini, responsável pela área de fruticultura de mais de 40 municípios. Além disso, um debate junto aos agricultores, prefeitura e os que integram o conselho municipal da agricultura daquele município, foi necessário para verificar o andamento dos trabalhos nos próximos dias, já que a estimativa é de que a geada tenha deixado rastros negativos. “Em Pinto Bandeira, quando se fala na questão do pêssego e da ameixa, o prejuízo foi maior. Gira em torno de 60% da safra. Projetamos essa média, porque teve produtores que perderam 15% ou 20% e outros 80%”, revela.

Segundo ele, além das vistorias em campo, os dados de Pinto Bandeira foram validados pelo Conselho Municipal da Agricultura, que possui integrantes de todos os setores produtivos e representantes das comunidades do interior. “Este é um laudo preliminar, porém, em 30, 40 dias, no máximo, faremos um laudo definitivo sobre estes prejuízos”, esclarece.

Em Bento Gonçalves, a região que mais concentra a produção das frutas de caroço é São Pedro. “Os dados, que ainda estão sendo computados pelo engenheiro agrônomo Alexandre Frozza, deverão ser divulgados na próxima semana”, indica Didoné.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Cedenir Postal, também avalia esta situação. Ele frisa que a Capital Estadual do Pêssego de Mesa realmente contabilizará alguns prejuízos. “Tivemos a reunião nesta semana, junto com demais entidades, poder público e produtores para avaliar e embasar o prefeito para um decreto de emergência relativo a estas perdas. Praticamente se chegou a um consenso de que a quebra na produção do pêssego partiria de, no mínimo, 60%. Agora, nos próximos dias, faremos uma avaliação para ver como as plantas se comportam. Pinto Bandeira como tem muitas variedades de pêssego precoce, foi mais atingido”, pontua o dirigente sindical.

Apesar destes dados, o presidente da Associação dos Produtores de Frutas de Pinto Bandeira (Asprofruta), Vagner Spadari, diz que ainda é muito cedo para definir quanto foi a porcentagem da perda de frutas de caroço. “Temos vários tipos de microclima na região e alguns produtores perderam as variedades precoces, as tardias não foram tão afetadas, mas teve perdas expressivas”, salienta. “Estamos avaliando ainda junto aos nossos produtores quais as providências a serem tomadas. Nas próximas semanas, com as chuvas previstas, teremos a real situação quanto as perdas das frutas de caroço, tanto pêssego quanto ameixa. Não tem nada concreto”, complementa.

Spadari explica que toda esta cadeia possui um envolvimento muito grande, tanto de produtores, empresas classificadoras e embaladoras de frutas, compradores e público alvo. “Não tem muito o que falar das perdas, pois é cedo ainda. Algumas variedades estão em floração, outras tinham formado o fruto, havia ocorrido a fecundação, e estas foram as mais afetadas”, observa.

O produtor Vanderlei Fabrício cultiva pêssego e ameixa em 6 hectares em solo pinto-bandeirense. Segundo ele, a floração estava normal e tudo conforme planejado. Porém, a forte geada, que de acordo com o registro do termômetro de rua marcou -4ºC, prejudicou a plantação. “Agora, não é fácil passar pelas árvores e ver a situação em que se encontram. Perdi quase 80% da produção com a queda brusca de temperatura, pois não tenho árvores de cultivo tardio. De fato, a análise ainda é precoce, mas, de forma geral, este é o dado”, lamenta.

Rogério Marini, morador da Linha Brasil, produz uvas e pêssegos – estes tanto de variedades mais precoces, quanto das tardias. Apesar da geada, ele revela que não houve perdas em sua propriedade. “O nosso principal problema é a mão de obra qualificada e o alto valor dos insumos”, afirma.

Nos parreirais impactos foram menores

O presidente do Sindicato Rural da Serra Gaúcha, Claimar Zonta, diz que apesar da brotação precoce de algumas variedades, e que em alguns anos a brotação é antecipada, o que preocupa é a geada. “Pelos prognósticos, temos ainda dois frios pela frente em setembro. Se ocorrer a incidência de geada mais para aquele mês, vai pegar não só as precoces, mas as tardias também. A forte geada prejudicou várias culturas, não só a videira, mas alguns lugares, onde as uvas precoces estavam adiantadas, não sabemos quantificar as perdas, não foi feito um levantamento total. Algumas propriedades tiveram prejuízo, mas ainda é cedo para dizer. Entretanto, acredito que não vai interferir na safra”, pontua.

Quem indica que também não haverá interferência na safra é o enólogo, diretor técnico e de pesquisa da Aprovale, e presidente do Conselho Regulador da Indicação Geográfica Vale dos Vinhedos, Daniel de Paris. “Alguns produtores do Vale dos Vinhedos foram impactados nesta última onda de frio. Mas o conhecimento técnico, aliado a previsão antecipada desta possibilidade de geada e a atuação prática preventiva, possibilitaram que estes impactos fossem minimizados. Não haverá comprometimento significativo quanto a safra 2021. Talvez tenhamos uma diminuição de produtividade, mas que não será perceptível ao mercado”, aponta.
Apesar disso, ele aborda que esta baixa brusca de temperaturas é um exemplo da delicadeza que envolve todo o processo de cultivo da uva em cada estação. “Devido aos dias quentes que antecederam a onda de frio, algumas variedades, que já são precoces por natureza, despertaram antes do estágio de dormência e iniciaram a brotação. Quando uma onda de frio muito intensa proporciona a geada e ela atinge esses novos brotos, existe sim a possibilidade de perda de brotos e de novas mudas”, alega.

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